quinta-feira, novembro 02, 2006

As Maravilhas do Xadrez

foto retirada daqui

O céu sorria azulado e limpo para aquele dia. No campo de férias,
anunciava-se o 4º dia de Torneio de Damas, Xadrez e Dominó.

Os jovens vagueavam numa estreita categoria etária dos 12 aos 14 anos. Aqueles que chegaram às meias-finais, andavam ansiosos, levemente sonhadores, com o desejo traçado no reflexo dos seus olhos: “vou ser vencedor”. O meu coração, o único surdo do campo de férias, andava com uma ansiedade ensurdecedor pela próxima jogada das peças de Xadrez.

Já tinha vencido três rapazes.

O último jogo foi belo e emocionante. O adversário tinha o dobro da minha altura e era dois anos mais velho que eu. Quando começámos o jogo, ele mostrou a sua força surpreendente. Apanhou todos os meus pequenos peões. Continuou a capturar: um cavalo, mais outro… A sua masmorra ia-se enchendo de prisioneiros, dos mais pequenos aos médios, enquanto a minha se encontrava quase oca. Descortinei logo o seu plano: tendia limpar todas as peças que defendiam o meu Rei para o pôr indefeso. Também reparei que andava à toa como um touro tresloucado a perseguir atrás da manta vermelha. Atacava o que aparecia à frente. Isto permitiu-me elaborar uma nova estratégia. O seu Rei encontrava-se posicionado perigosamente num canto do tabuleiro, tendo apenas duas saídas para escapar. Os seus defensores estavam longe e ocupados a guerrear os meus soldados. Vedei então uma saída do Monarca oposto, colocando o meu guerreiro – o digno príncipe - a uma distância considerável e semi-oculta. O adversário acompanhou este movimento, mas ignorando o seu objectivo. Tinha outra prioridade: a minha Torre. Caçou-a. E, a seguir, deslizei a mais poderosa e altiva de todas as peças – a Dama. Todo o meu corpo bombardeava atordoado de vitória…

“Ganhei!!!”, gritei para dentro de mim. O rosto do opositor ficou lívido, todo o sangue fora sugado. Arqueou-se respirando com dificuldades... O seu Rei estava encurralado! Sacudiu a cabeça, repetidas vezes, tentando dissimular esta visão traiçoeira. No entanto, a verdade sanguinária “Xeque-mate!” não desaparecia dali. Estava mesmo vencido, acabado. Suspirou febrilmente.

Quando me levantei, o meu monitor Z.P. pegou-me e elevou-me ao ar. O seu olhar verde brilhou de estrelas. Exclamou que este jogador era dos bons. Os meus colegas de equipa também congratularam-me com o mesmo sentimento empapado de cumplicidade e camaradagem.

Quando cheguei à sala de torneios, os materiais de Xadrez, Damas e Dominó já estavam distribuídos nas mesas. Quem seria o adversário seguinte? Tão perigoso quanto os três anteriores? Fui ao painel, onde estava afixado o mapa dos participantes, para ver quem era. O meu queixo descaiu de incredulidade…

Uma rapariga de estatura média, de olhos verdes e cabelos castanhos lisos que chegavam até aos ombros, sentou-se à minha frente. Antes de iniciarmos a jogada, estudei a sua fisionomia, cada traço do seu rosto, cada estímulo das suas reacções. Esta observação corporal é indispensável para antecipar as suas intenções de ataque no decorrer do jogo. “Está segura e firme. Deve jogar bem…”, retorqui em silêncio para os meus botões. Face a esta conclusão, os meus nervos entraram em alerta.

Começámos. Uma peça, outra peça. Ataques e defesas semelhantes. Afinal, era uma adversária extremamente difícil, tripliquei o meu esforço mental, criando umas novas técnicas de avanço e de luta. O meu cérebro latejava a cada minuto perante obstáculos e ataques imprevistos. A rapariga também percebeu que eu era exigente e concentrou-se mais. O jogo foi assim ficando cada vez mais complicado.

No momento em que estávamos quase no fim do jogo, a empatarmos, alguns jovens e monitores, apercebendo da complexidade do jogo, instalaram-se nas cadeiras, um a um, perto da nossa mesa, fazendo de público. Este monte de vultos, em constante movimento como uma brisa, desconcentrou-me, fez com que não reparasse numa peça traiçoeira e…perdi!

Foi um jogo e tanto, que durou uma hora! Doía-me a cabeça de tanto pensar, de dar as voltas aos meus neurónios.

O Z.P. veio ter comigo, com um ar de quem já estava à espera de que eu iria perder.
- Então?
- Perdi! Distraí-me, não vi uma peça! – queria acusar o “público”, da sua invasão incómoda, porém contive-me.
- Mas jogaste muito bem. Sabes porque?
- Porquê?
- Porque a N. já joga o Xadrez em campeonatos nacionais e internacionais.
- Uauu…- fiquei muda durante uns segundos, assimilando cada palavra que lera nos lábios do Z.P. - Então, era por isto que o jogo foi muito difícil!
- E tu estiveste quase a empatá-la! Estás a ver? Jogaste muito bem! Parabéns! – o Z.P. deu-me um forte e incentivo abraço.


(Assim ficou a recordação, perpetuada nas minhas memórias até hoje. O meu pai ensinou-me as maravilhas do Xadrez quando eu tinha 9 anos. Fiquei imensamente cativada pelas peças, pelo mistério e elegância que delas surtiam. O jogo dava-me o poder de raciocinar, lutar e defender. No ano anterior deste episódio, ganhei uma medalha de 2ºlugar.)

19 Comments:

Anonymous Jofre Alves said...

Faço a ronda, não por imperativos menos concebíveis, mas porque este blogue é duma estética irrepreensível, comprometido com a beleza da vida, a merecer mais e constantes visitas, porque aqui respira-se serenidade, e sinto-me, dum modo agradável, satisfeito, porque a excelência não tem preço, simplesmente, apreço. Bom fim-de-semana.

4:05 da tarde  
Blogger bettips said...

Um beijo para ti, as tuas imagens são de sonho e sensibilidade.

10:44 da tarde  
Anonymous guevara said...

:D

5:00 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

"o meu coraçao surdo".
é bonito. mas nem o teu coraçao nem os teus olhos sao surdos e interpretam na perfeição qualquer textualidade.

beijinhos da leonoreta

6:06 da tarde  
Blogger Teresa David said...

Tem graça que sempre gostei bastante de jogar damas mas xadrez nunca me puxou, mas após ler este conto, até que fica a vontade de ir a correr aprender a jogar.
Bjs
TD

12:23 da tarde  
Blogger vida de vidro said...

Confesso que nunca soube jogar, no máximo sei mexer as peças. Mas é prova de um óptimo raciocínio saber jogar bem. **

10:53 da tarde  
Blogger Lumife said...

Como nem sempre há possibilidades de visitar os amigos coloquei hoje um poema dedicado a todos os que considero como tal e a quem desejo tudo de bom.
Beijos

8:56 da tarde  
Blogger maresia_mar said...

Olá querida,
há que tempos não vinha aqui, tenho andado afastada devido a falta de tempo, mas hoje cá estou.. o xadres é um jogo para o qual não tenho paciência nenhuma. Confesso que não sou boa jogadora.
Ainda bem que tu és diferente e jogas bem, a tua medalha deve ter sabido muito bem não? Bjhs com sabor a maresia

11:48 da manhã  
Blogger FOTOESCRITA said...

Apreciei a tua descrição, muito viva, como de costume.

7:18 da tarde  
Blogger M.M. said...

Olá Silence Box!
Desculpa por nunca mais ter passado pelo teu blog.
Gostei muito deste post.
Também gosto das maravilhas do Xadrez, embora seja somente um amador, ao pé da tua destreza. ;)

Um grande beijinho:

M.M.

3:03 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

_____BOM__FIM DE__SEMANA!
_____LET__THE__SUN__SHINE
______IN___YOUR___SMILE___
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10:24 da tarde  
Blogger paidopedro said...

cara silentebox. já tinha deixado um comentário noutro post, mas , depois de leitura mais atenta, vasculhando no teu baú de memórias, não resisto... tu tens um dom, o dom das palavras, o dom de abserveres oa momentos sensorialmente, de captar emoções, tensões. como já disse no outro comentário, tenho um filho surdo profundo com 7 anos e linkei-te no blog que lhe dedico. muito obrigado pelos teus textos, que revelam toda a complexidade da existência, surda ou não, não interessa... que prazer ler-te! beijinhos

7:34 da tarde  
Blogger cloinca said...

Vim cá ter através do blog dos "pais dos Pedro", que te escreveram o comentário anterior.
Estou fascinada com a tua escrita... com a tua capacidade de passar para o "papel" tanta intensidade sensorial... tanta emoção...
Já estou como o pai do pedro... "ai se eu fosse editor!".
Já pensaste em concorrer ao consurso de novos talentos da Fnac?
;)
Pensa nisso com carinho!
Um beijinho grande para ti,
Cláudia (Porto)

7:44 da manhã  
Blogger Maria said...

Cheguei ao teu bonito espaço através do paidopedro. Parabéns por tão belas imagens, palavras e sentimentos. Um abraço.

12:46 da manhã  
Anonymous nani said...

Ola!
Foi um grande prazer ler tuas palavras no blog!Consegues transmitir ao profundo.Fiquei emocionada ao ler o teu primeiro post.Tenho uma filha especial,o meu amorzinho de 7 anos.A Giovana!
Vou voltar mais vezes!
Um grande abraço de Nani.

2:02 da manhã  
Blogger Pe. Vítor Magalhães said...

Gosto muito de jogar, ajuda ao raciocinio

12:46 da tarde  
Blogger mãedopedro said...

é interessante observar que algumas pessoas surdas tenham uma apetência especial pelos raciocínios lógico-dedutivos e como mãe de uma criança surda e também como professora de matemática acredito que a matemática é ou poderá ser uma linguagem alternativa, estruturante e também libertadora.
Um beijo

12:10 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

….(`“•.¸(`“•.¸ ¸.•“´) ¸.•“´)
….(¸.•“´(¸.•“´ `“•.¸)`“ •.¸)
......d88888bd888b.
.....d8888888888888B.
.....888888P`Y8888P.
.....Y888888.....( , \_.
....,_Y88(.................)....*Passo para te ler...
....Y888888b.......__\..
.....“8“888P........(_.... para saber como estás...
.............|.....----“..
...........~;~~\~..... * Para te deixar um beijo
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..........|___|.|............ e desejo bom fim de semana!!!!
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«`“•.¸.♥ Nadir ♥ ¸.•“´»
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12:49 da manhã  
Blogger @Memorex said...

O Xadrez nunca foi o meu forte, na verdade tive a oportunidade de aprofundar este jogo por vezes cativante aos olhos do meu pai, sobretudo da minha irmã mais nova!

Com pena minha, o interesse não foi notório.

Adoro ver-te escrever, dá-me um alento para a escrita :)

Beijinhos espacialmente galácticos!
Carinhosamente Memorex.

8:26 da tarde  

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